Encontros de Reflexão
O conteúdo desta página é dinâmico e reúne os textos apresentados no Grupo de Leitura das quartas-feiras. Aqui você encontra reflexões sobre “Apesar da sua Idade”, pensadas para quem não pôde participar de algum encontro e também para quem está começando agora essa jornada de sabedoria e liberdade na maturidade.
Participe das nossas reuniões online e faça parte dessa conversa inspiradora: 👉 https://chat.whatsapp.com/BUH9PKkewS2H5AD5MmPdqW
Quarto encontro - 06/05/2026
Em nosso último encontro, antes da leitura destaquei quais os aspectos do texto lido que nos estiulam a refletir sobre os possíveis benefícios imediatos de reflexões e atitudes que podemos adotar à luz do texto .
- Ele nos convida a reconhecer limites, dizer “não” sem culpa e buscar apoio quando necessário.
- Traz lucidez para escolher o que realmente importa e abandonar expectativas que não nos pertencem.
- A maturidade permite revisitar sonhos, reconstruir sentidos e viver com mais autenticidade.
- Ela não elimina os pesos, mas oferece ferramentas para carregá-los com dignidade, coragem e uma liberdade interior mais serena.
Veja o que lido no quarto encontro, dando continuidade:
O amadurecimento como despertar
Ele e seus muitos pesos
O amadurecimento costuma ser celebrado como um território de sabedoria, clareza e força interior. Mas essa imagem luminosa, embora verdadeira em parte, não revela o quadro completo. Ele também é feito de derrotas, de dores silenciosas, de responsabilidades que se acumulam como pedras nos bolsos. É um momento da vida em que muitas pessoas — sobretudo mulheres — precisam carregar mais do que o próprio corpo: carregam famílias, histórias, expectativas e renúncias.
Envelhecer não é apenas atravessar o tempo; é atravessar camadas de exigências. Para muitas mulheres, a maturidade chega acompanhada de uma dupla ou tripla jornada: ser mãe e profissional, cuidar de pais idosos, apoiar netos, enfrentar doenças crônicas, lidar com aposentadorias insuficientes e, muitas vezes, aprender a conviver com a solidão. Não há nada de etéreo nisso. É vida real, concreta, pesada. E, ainda assim, profundamente humana.
A maturidade é potência, sim — mas também é peso. É cansaço acumulado, é renúncia silenciosa, é reconstrução diária. É a consciência de que nem sempre haverá aplausos, mas ainda assim haverá caminho. É a coragem de seguir mesmo quando o corpo pede pausa e o mundo pede mais.
Ela também oferece ferramentas. A lucidez que vem com os anos nos permite enxergar o que antes passava despercebido: o que vale a pena, o que pode ser deixado para trás, o que precisa ser cuidado com mais delicadeza. Ela não elimina as dores, mas nos dá instrumentos para lidar com elas.
Mitigar esse conjunto desfavorável não é negar a realidade — é aprender a caminhar com ela de forma mais leve. E isso começa por reconhecer limites. A fase madura nos autoriza a dizer “não” sem culpa, a estabelecer fronteiras, a recusar o papel de quem resolve tudo para todos. É um ato de amor-próprio e, paradoxalmente, um ato de amor ao mundo: só quem se preserva pode continuar oferecendo algo de verdadeiro.
Outro caminho é cultivar redes de apoio. A solidão pesa menos quando compartilhamos a vida com pessoas que nos escutam, nos acolhem e nos lembram que não precisamos ser fortes o tempo todo. O estado adulto nos ensina que pedir ajuda não é fraqueza — é sabedoria.
Cuidar do corpo também se torna essencial. Não como imposição estética, mas como gesto de respeito por quem somos. Pequenos rituais de autocuidado — uma caminhada, uma pausa consciente, um exame em dia — são formas de dizer ao tempo: “estou aqui, por inteiro, apesar de tudo”.
E há ainda a dimensão interior. A maturidade convida à introspecção, à revisão de crenças, à reconstrução de sentidos. É um período fértil para resgatar sonhos esquecidos, iniciar novos projetos, descobrir prazeres simples. Mesmo em meio às dificuldades, é possível cultivar uma vida que faça sentido — não perfeita, mas verdadeira.
No fim, talvez a grande sabedoria da maturidade seja esta: compreender
que a vida não se torna mais leve por milagre, mas por escolha. E que, mesmo
carregando pesos, ainda podemos caminhar com dignidade, com coragem e com a
beleza silenciosa de quem segue — apesar de tudo — profundamente vivos.
Um novo olhar sobre o envelhecer
A visão madura que nos oferece o envelhecimento surge no instante em que deixamos de tratar o tempo como um inimigo implacável e começamos a percebê-lo como um mestre paciente, que ensina sem pressa e sem exigir reconhecimento. Esse despertar se manifesta como a mudança sutil da luz antes do amanhecer: tudo parece igual, mas algo em nós já se transformou. De repente, compreendemos que aquilo que chamávamos de urgência era apenas inquietação, e aquilo que temíamos como perda era, na verdade, um convite à transformação. É nesse ponto que a vida revela um segredo simples e profundo: Envelhecer, é reaprender a ver a vida sob uma nova ótica.
Durante boa parte da existência, somos treinados a correr. Corremos atrás de metas que não escolhemos, de expectativas que não nos pertencem, de validações que acreditamos indispensáveis. Corremos porque nos repetem que o tempo é curto, que a vida é uma disputa, que só tem valor quem está sempre em movimento. A juventude, com sua energia vibrante, costuma confundir intensidade com pressa, movimento com propósito, barulho com significado; mas chega um momento — o limiar silencioso da maturidade — em que percebemos que a velocidade não garante profundidade. Muitas vezes, ela apenas nos afasta de nós mesmos, como se cada passo apressado nos distanciasse um pouco mais daquilo que realmente importa.
O amadurecimento começa quando a pressa cede espaço à lucidez. Não é o mundo que desacelera; é o nosso olhar que se amplia. O que antes parecia urgente se relativiza, o que parecia indispensável se dissolve, o que parecia distante se aproxima. A vida deixa de ser uma corrida frenética e se transforma numa travessia consciente. E, nessa travessia, descobrimos que o olhar mais importante não é o que lançamos para fora, mas o que voltamos para dentro. Esse retorno ao interior não é fuga, mas reencontro. É o reconhecimento de que a verdadeira juventude não está no vigor físico, mas na vitalidade da consciência.
O corpo segue seu curso natural: muda, envelhece, se adapta; mas a consciência pode permanecer curiosa, desperta e luminosa. A idade cronológica é apenas um número de referência; a idade da consciência é uma escolha, uma postura diante da vida. E essa escolha se renova a cada dia, a cada gesto e a cada pensamento que decidimos cultivar.
Maturidade é a arte de caminhar com propósito — não porque sabemos o destino, mas porque reconhecemos quem somos enquanto caminhamos. É a habilidade de olhar para a própria história sem ressentimento, para o presente sem ansiedade e para o futuro sem medo.
Essa clareza nasce de um processo contínuo de depuração. Depurar ilusões exige coragem para abandonar narrativas antigas, humildade para admitir equívocos e paciência para reconstruir o olhar. É um trabalho silencioso, quase artesanal, que se faz por dentro. Ao depurar ilusões, ganhamos algo precioso: espaço interior. E é nesse espaço que o amadurecimento floresce, como uma planta que finalmente encontra solo fértil para se expandir.
A postura adulta também nos ensina que viver não é perseguir o tempo, mas habitá-lo. Durante muito tempo, acreditamos que o tempo escapa pelas mãos, que precisa ser controlado, domado, vencido. Mas o tempo não é inimigo; é o tecido da própria vida. Habitar o tempo é estar presente, permitir que cada instante revele sua textura, sua densidade, sua singularidade. É compreender que a vida acontece no agora, e que o agora é sempre suficiente quando o habitamos com inteireza.
Habitar o tempo com profundidade significa abandonar a ilusão de linearidade. A lucidez desta época da vida nos mostra que a vida é circular, cheia de retornos e recomeços. O que parecia resolvido retorna sob nova forma; o que parecia perdido ressurge com outro significado. Nada se encerra completamente, nada se repete exatamente igual. A vida é um movimento contínuo de espirais, e envelhecer é aprender a dançar com esse movimento.
Nesse caminhar, descobrimos que a visão madura é uma forma de liberdade — não a liberdade impulsiva da juventude, que muitas vezes confunde escolha com fuga, mas uma liberdade serena, que nasce do autoconhecimento.
A maturidade nos conduz a uma verdade luminosa: ela
é um estado de ser mais amplo, mais silencioso, mais verdadeiro de estar no
mundo.
Terceiro encontro - 29/04/2026
Veja o que lido no terceiro encontro, dando continuidade:
Um despertar necessário ao enfrentamento
Capítulo 1: o ritual da ampulheta
Diz-se que, ao cruzar a fronteira invisível dos 40 anos, um homem e uma mulher são convocados — sem direito a apelação — para a solene cerimônia de iniciação contra o idadismo. Não há tapetes vermelhos, apenas - para cada um - uma cela de pedra, úmida como a consciência tardia, onde uma ampulheta (como símbolo do tempo) insiste em lembrar que ele, o tempo, não negocia, e um crânio (como símbolo da finitude) observa tudo com paciência.
Ali, sentados
em bancos desconfortáveis — porque iluminação filosófica nunca vem com
almofadas — eles enfrentam o primeiro passo: a introspecção compulsória.
Precisam escrever suas confissões, admitindo o preconceito que um dia nutriram
contra os mais velhos. Cada palavra é um pedido de perdão, uma tentativa de
remendar o tecido moral que deixaram puído por descuido ou arrogância juvenil.
Depois, redigem seus testamentos — não de bens, pois esses evaporam como vaidade ao sol — mas de legados. Conselhos, alertas, pequenas fagulhas de lucidez destinadas aos jovens que ainda acreditam que a juventude é eterna e que rugas são falhas de caráter.
Ao final, saem
da cela ligeiramente abalados — mas não de olhos abertos. São conduzidos para
fora, vendados, como quem renasce sem ainda saber decifrar a luz. E enquanto
caminham, tateando as paredes com a cautela de quem teme tropeçar na própria
consciência recém-despertada, uma única pergunta pulsa, insistente, quase
insolente, dentro de suas cabeças: "E agora, o que há de vir?"
Capítulo II: O rito sobre a terra que treme
Agora, vendados, atravessam uma planície que ruge sob seus pés, como se a própria terra tivesse decidido zombar deles. O sismo abre fendas profundas, obrigando-os a equilibrar-se sobre o nada, como equilibristas tardios num circo que nunca pediram para integrar.
As caminhadas, antes tão simples, transformam-se em cataclismos intermináveis. E, no entanto, algo curioso acontece: de dentro deles surge uma força suave, quase maternal, que os guia. Não os poupa do medo, mas os impede de cair. É como se o próprio espírito, cansado de ser ignorado, resolvesse assumir o volante.
Nesse transe, percebem o idadismo emergindo das rachaduras — um monstro sorrateiro que insiste em classificá-los como descartáveis, sobretudo no trabalho. Mas o pânico não vence. A tal força interior os conduz até um terreno plano, onde entendem que as antigas planícies tranquilas não voltarão. O mundo agora tem abismos repentinos.
Ainda assim,
descobrem que há caminhos e respostas para atravessar terremotos. E, enquanto
descansam, sentem no ar a promessa inquietante de que a iniciação está longe de
terminar.
Capítulo III: a travessia das águas
A travessia, claro, não terminara. No horizonte, uma onda colossal ergueu-se com a arrogância dos deuses antigos e, num ímpeto, engoliu tudo. O preconceito, na forma de fúria das águas os atingiu sem piedade, arrastando-os por um mar de inverdades sobre o envelhecimento — mentiras tão repetidas que quase lhes tiram o ar, quase os convencem de que deveriam ser invisíveis, submersos, descartáveis. Sob as águas do idadismo, estavam muitos corpos de afogados: vítimas que, por escolhas próprias, deixaram-se levar pela correnteza social.
Ainda assim, a mão acolhedora permaneceu. Com esforço, conduziu-os a um ponto calmo, onde puderam respirar. Ali compreenderam: aceitaram essa proteção desde o início, e ela — a consciência desperta — os guiou por cada cataclismo. O idadismo sempre existirá; o que muda é a forma como se reage a ele.
Mesmo tendo
engolido alguma água, sentem-se preparados. As fases futuras virão, mas agora
sabem que não caminham sozinhos.
Capítulo IV: o portal após a fúria do tempo
Exaustos das fases anteriores da iniciação, o homem e a mulher mal conseguem recuperar o fôlego quando um vendaval anuncia a próxima provação. Um furacão se ergue diante deles, decidido a arrastar conquistas, memórias e qualquer vestígio de história que comprove suas experiências. O idadismo, em sua versão mais performática, surge como um turbilhão devastador: caótico, barulhento, cheio de vontade própria, como se o mundo conspirasse para varrer do mapa todos os que ousam ultrapassar o “prazo de validade” social.
No auge da fúria dos ventos, quando já quase se veem dissolvidos no céu, percebem novamente a mão cuidadora de suas consciências — aquela força silenciosa que insiste em lembrá-los de que sabedoria não se perde com o vento. É ela que os impede de desaparecer.
Quando o
furacão finalmente se dissipa, eles emergem ainda mais cansados, roupas em
frangalhos, cabelos em desalinho diante de um portal de pedra, belo, antigo,
misterioso.
Intuem que a jornada se aproxima do fim, ou talvez de um novo começo — porque iniciações raramente respeitam calendários.
Mas, pela
primeira vez, sentem-se prontos para atravessar.
Capítulo V: o juramento diante do portal velado
Ainda vendados, sustentados pela mão amiga que já os guiara por terremotos, ondas e furacões, o homem e a mulher atravessam o portal. Nada veem, mas sentem — com aquela certeza que só o invisível oferece — que estão em um lugar sagrado, talvez em um templo erguido antes mesmo da primeira ruga da humanidade. Uma voz firme, porém, acolhedora, pede que se aproximem. Eles obedecem, conduzidos pela mão cuidadora.
Então outra voz, surgida atrás deles, começa a enumerar seus sacrifícios, suas conquistas, cada passo que os trouxe até ali. Lembra-lhes da mão que os guiou — a consciência que, teimosa, recusou-se a deixá-los afundar no idadismo. Uma terceira voz, distinta, acrescenta que essa mesma consciência será agora sua arma e seu dever: como iniciados, devem combater o preconceito da idade num mundo que insiste em tratá-los como notas de rodapé vencidas.
Conduzidos ao centro do templo, são chamados a selar o compromisso. Um juramento sagrado, simples e irrevogável: usar suas vozes, atitudes e letras para enfrentar o idadismo onde quer que ele se esconda.
No instante que antecede o juramento, aos iniciados é concedido o direito silencioso de recuar. Podem abandonar o compromisso e, ainda vendados, são conduzidos para fora do templo. Essa possibilidade — quase uma provocação filosófica — lembra que nenhum voto é sagrado se não nascer da consciência desperta. A iniciação não aceita prisioneiros, apenas escolhas verdadeiras.
Quando as
vendas enfim caem, seus olhos se abrem para algo indescritível. Não se pode
registrar o que viram. Essa visão pertence apenas aos iniciados.
Segundo encontro - 22/04/2026
Veja o que lido no segundo encontro, dando continuidade:
Além da idade,
a coragem
A experiência
descrita no artigo “Apesar da sua Idade” revela um momento inaugural de
confronto direto com o idadismo corporativo — uma forma de preconceito que,
embora muitas vezes silenciosa, infiltra-se nos ambientes profissionais com
surpreendente naturalidade. O episódio, marcado pela escuta da frase que dá
título ao artigo, expõe a força simbólica de palavras que, mesmo breves,
carregam o peso de uma visão social profundamente enraizada. A constatação de
que o idadismo pode emergir em espaços que se pretendem técnicos, racionais e
meritocráticos provoca uma ruptura na percepção habitual do cotidiano
profissional.
A situação,
inicialmente recebida com surpresa e choque, abre um campo de reflexão sobre a
capacidade humana de disseminar limitações por meio de discursos aparentemente
inofensivos. Seja por inocência, ignorância ou malícia, certas expressões e
atitudes reforçam fronteiras artificiais que restringem a trajetória de
indivíduos considerados “fora da idade padrão”. Essa constatação revela que a
discriminação etária não se manifesta apenas em políticas formais, mas também
em gestos, comentários e expectativas implícitas que moldam a forma como o
valor de uma pessoa é percebido.
A partir desse
episódio, iniciei um movimento de busca por compreensão mais profunda das
dinâmicas do idadismo e de seus impactos. O impulso inicial, motivado pela
necessidade de elaborar a experiência vivida, eu transformei em investigação
sistemática. O estudo do tema, ao longo de mais de uma década, me permitiu não
apenas o acúmulo de conhecimento, mas também a construção de uma visão crítica
sobre os mecanismos sociais que sustentam esse tipo de discriminação. O
processo de pesquisa eu expandi para além da esfera individual, alcançando
amigos, grupos e redes na internet, onde milhares de leitores passaram a
acompanhar reflexões, análises e relatos.
Essa trajetória
de compartilhamento evidenciou que o idadismo não é uma questão isolada, mas um
fenômeno coletivo que atravessa gerações e contextos. Ao tornar públicas as
descobertas e reflexões, eu pude criar um espaço de diálogo que permitiu que
outras pessoas reconhecessem suas próprias experiências e encontrassem
linguagem para nomeá-las. O conhecimento, nesse sentido, tornou-se instrumento
de emancipação. A reflexão individual se converteu em movimento social, e a dor
inicial se transformou em força para iluminar caminhos.
No momento
atual, essa jornada encontra um ponto de consolidação. A minha experiência
acumulada ao longo dos anos se organizou em uma visão ampliada sobre a idade e
sobre o que está além dela. A fase madura passa a ser compreendida não como
limite, mas como território fértil para sabedoria, liberdade e coragem. A
reflexão sobre o idadismo se articula com ensinamentos filosóficos que oferecem
lentes poderosas para interpretar a realidade e orientar a ação.
A metáfora da
Caverna de Platão, por exemplo, ilumina a forma como o idadismo opera como
sombra projetada sobre a percepção coletiva. Assim como os prisioneiros da
caverna confundem silhuetas com realidade, a sociedade frequentemente confunde
idade com incapacidade, experiência com obsolescência, envelhecimento com
rigidez. A saída da caverna — o movimento de questionar, investigar e
compreender — permite enxergar que esses contornos não são verdades, mas
construções culturais que podem ser desfeitas.
A teoria da
Janela de Overton, por sua vez, oferece uma perspectiva sobre como ideias antes
consideradas aceitáveis podem ser deslocadas. O idadismo, durante muito tempo,
ocupou um espaço de normalidade social. Comentários como “você já está velho
para isso” ou “apesar da sua idade” circulavam sem contestação. Ao estudar e
divulgar o tema, amplia-se o campo do que é possível pensar e dizer. A janela
se move, e aquilo que antes era visto como natural passa a ser reconhecido como
preconceito. A reflexão crítica transforma o que é socialmente tolerável.
O estoicismo
acrescenta outra camada a essa compreensão. Ele ensina que, embora não seja
possível controlar as atitudes alheias, é possível controlar a forma como se
responde a elas. A experiência do idadismo, quando vista sob essa perspectiva,
deixa de ser apenas ferida e se torna matéria-prima para fortalecimento
interior. A serenidade diante do inevitável, a coragem diante do injusto e a
ação orientada pelo propósito constituem pilares que permitem transformar
adversidade em crescimento.
Assim, a
reflexão sobre a idade se expande para além do combate ao preconceito. Ela se
torna meditação sobre o próprio sentido da existência. A fase madura é
compreendida como fase de integração, em que passado, presente e futuro se
entrelaçam. A idade deixa de ser medida cronológica e passa a ser expressão de
plenitude. A vida, vista sob essa ótica, não é linha reta, mas espiral que se
aprofunda com o tempo.
O episódio da
reunião — no qual a frase “Apesar da sua idade” foi pronunciada — assume,
então, um papel simbólico. Ele funciona como gatilho para uma série de ações
pessoais e profissionais, mas também como ponto de partida para uma
transformação mais ampla. O que poderia ter sido apenas um momento de
desvalorização tornou-se semente de um percurso intelectual e existencial.
Agora, esse mesmo episódio serve como estímulo para a escrita de um livro que
reúne, organiza e expande toda essa trajetória.
O livro que
surge desse processo não é apenas registro, mas convite. Ele convida à reflexão
sobre como a sociedade enxerga a idade, sobre como cada pessoa pode enfrentar o
idadismo e sobre como conduzir a vida com lucidez, propósito e força interior.
Convida também a reconhecer que a velhice é espaço de potência, não de
limitação. E, sobretudo, convida a perceber que a transformação social começa
quando alguém decide questionar a sombra, mover a janela e cultivar a coragem.
A frase que um
dia limitou, agora impulsiona. O que antes feriu, agora ilumina. O que parecia
obstáculo, agora se revela caminho. E, nesse movimento, a reflexão sobre a
idade se torna reflexão sobre a própria condição humana — sempre em busca de
sentido, sempre em busca de liberdade, sempre em busca de sabedoria.
Filosofia como
Apoio na Travessia
A Caverna de
Platão não é uma metáfora ultrapassada. Ela nos lembra que preconceitos são
sombras projetadas por estruturas sociais. Enxergar além delas exige coragem —
e essa coragem é o primeiro passo para reagir ao idadismo. A Janela de Overton,
por sua vez, mostra que o que hoje é socialmente tolerado pode ser deslocado.
Ao nomear a discriminação, ao falar sobre ela, ao escrever sobre ela, movemos
essa janela. O que era normal passa a ser questionável. O que era invisível
ganha forma.
O estoicismo,
por fim, não é resignação. É força interior. Ele nos ensina que, embora não
possamos controlar o olhar alheio, podemos controlar nossa resposta. E essa
resposta pode ser ética, firme, lúcida. Pode ser a recusa em aceitar o papel de
invisível. Pode ser a escolha de continuar contribuindo, ensinando, liderando —
apesar da idade.
Esse conjunto
filosófico não é uma fórmula mágica. Mas é um mapa. Um mapa que ajuda a
entender o terreno, a reconhecer os abismos e a encontrar caminhos. Quando
somado a ações concretas — como políticas públicas inclusivas, práticas
profissionais éticas e redes de apoio pessoal — ele se torna ainda mais
potente.
O idadismo não
será eliminado por completo. Mas pode ser deslocado para o campo do impensável.
Pode deixar de ser aceitável. Pode ser enfrentado com consciência e coragem. E,
nesse enfrentamento, a filosofia não é um luxo — é uma ferramenta. Uma luz que,
embora não pague boletos, ilumina a travessia.
Para quem sofre
o preconceito, esse conjunto é um convite à resistência lúcida. Não é fuga da
realidade. É enfrentamento com serenidade. Porque envelhecer não é perder valor
— é ganhar perspectiva. E essa perspectiva pode transformar dor em movimento,
sombra em clareza, idade em potência.
Travessia
Filosófica Contra o Idadismo
Na próxima
reunião de leitura (29/04) de Apesar da Sua Idade, seremos convidados a atravessar um
verdadeiro rito de consciência. Exploraremos o capítulo “Um despertar
necessário ao enfrentamento”, onde o idadismo surge não como teoria, mas como
provação simbólica: a ampulheta que nos lembra da finitude, a terra que treme
sob nossos passos, as águas que tentam nos submergir e o furacão que ameaça
apagar nossa história. Cada etapa revela que o processo de envelhecer não é
decadência, mas iniciação — um chamado para olhar o tempo com lucidez e
coragem. Este encontro será um espaço para refletirmos sobre nossos próprios
preconceitos, medos e renascimentos. Venha participar dessa travessia
filosófica que ilumina e transforma. Sua presença é parte essencial do caminho.
Primeiro encontro - 15/04/2026
Veja o que lido no primeiro encontro
Abertura
Quero
agradecer profundamente a presença de cada um de vocês na reunião de hoje do
nosso Grupo de Leitura. É uma alegria iniciarmos juntos a exploração do livro
“Apesar da sua idade: Sabedoria, Liberdade e Coragem na Maturidade – Como
enfrentar o idadismo e conduzir a vida com lucidez, propósito e força interior
à luz dos ensinamentos da Caverna de Platão, da Janela de Overton e do
Estoicismo”. Este é um tema que nos convida a refletir sobre a maturidade de
forma ampla, crítica e inspiradora, e acredito que nossa troca coletiva tornará
essa jornada ainda mais rica.
A
metodologia do grupo é simples e ao mesmo tempo muito eficaz. Farei uma leitura
inicial de aproximadamente quinze minutos, conduzindo o trecho escolhido para a
semana. Enquanto isso, cada participante poderá ouvir com atenção, registrar
ideias, anotar dúvidas e destacar pontos que despertem interesse. Na segunda
parte da reunião, também com cerca de quinze minutos, abriremos para
comentários, perguntas, reflexões e conexões pessoais. Essa dinâmica favorece
tanto a compreensão profunda do texto quanto a construção de um espaço de
diálogo significativo.
Esse
formato é utilizado por muitos escritores profissionais, que reconhecem o valor
de manter viva a experiência do livro por meio da leitura compartilhada. Além
de enriquecer a obra, cria-se um ambiente exclusivo, no qual o conteúdo é
vivenciado de forma mais íntima e colaborativa.
Nossa
previsão é realizar uma série de encontros semanais ao longo de seis semanas,
ajustando conforme o interesse do grupo. Peço que, se possível, convidem outras
pessoas que possam se beneficiar dessa experiência. Será um prazer receber
novos participantes.
Apresentação
A
reflexão sobre o idadismo, quando deslocada do campo técnico e transportada
para o território da experiência humana, revela uma profundidade que raramente
encontra espaço nos discursos institucionais. A comparação entre obras
acadêmicas e o texto do livro “Apesar da sua idade” evidencia não apenas
diferenças de abordagem, mas sobretudo divergências de propósito. Enquanto a
literatura tradicional sobre o tema busca nomear, classificar e corrigir um
fenômeno social, a minha escrita procura compreendê-lo como parte de uma
travessia existencial — uma ferida que, ao ser tocada, convoca transformação.
O
ponto de partida do meu livro não é o conceito, mas o impacto. A frase que ecoa
no corpo, o veneno que corrói, a ruptura íntima que antecede qualquer definição
sociológica. Essa escolha narrativa desloca o idadismo do campo das
estatísticas para o campo da consciência. Em vez de perguntar “o que é o
idadismo?”, a minha obra pergunta “o que ele faz conosco?”. Essa inversão
filosófica é decisiva: o preconceito deixa de ser apenas um problema externo e
passa a ser também um espelho que revela fragilidades, expectativas e
mitologias pessoais.
A
estrutura narrativa reforça esse movimento. Em vez de relatórios, gráficos ou
recomendações, eu procurei construir uma jornada simbólica. Memórias, contos,
metáforas e imagens arquetípicas — a caverna, a ampulheta, o portal, o vendaval
— formam um tecido literário que transforma o envelhecimento em rito de
passagem. A maturidade, nesse contexto, não é um número, mas um território. Não
é limite, mas travessia. Não é decadência, mas possibilidade de lucidez.
Essa
dimensão filosófica é o que mais distingue o livro. Enquanto textos
institucionais se concentram em políticas públicas, mercado de trabalho e
estereótipos, eu articulo referências que vão de Platão ao estoicismo, da
psicologia existencial à Janela de Overton. O idadismo, assim, deixa de ser
apenas um fenômeno social e se torna uma questão de sentido da vida — uma
pergunta sobre tempo, identidade, finitude e liberdade.
O
tom emocional reforça essa singularidade. Meu texto não descreve o idadismo;
ele o encarna. A escuridão do túnel, a luz intensa, o corpo que reverbera —
tudo convida o leitor a sentir, e não apenas compreender. Essa sensorialidade
contrasta com a objetividade dos estudos acadêmicos, que privilegiam
diagnósticos, estatísticas e recomendações práticas.
Ainda
assim, há convergências importantes. Tanto “Apesar da sua Idade” quanto os
autores tradicionais reconhecem o idadismo como preconceito estrutural, apontam
seus impactos psicológicos e denunciam a invisibilidade social que ele produz.
A diferença está no caminho proposto. Enquanto os textos institucionais buscam
transformação social, a minha escrita propõe transformação interior. Um tripé —
consciência, coragem, propósito — substitui legislações, campanhas e políticas
de RH. Não porque estas sejam irrelevantes, mas porque eu escolhi outro campo
de batalha: o da subjetividade.
Eu
aplico dois recursos no livro que aparecem ao longo da obra, ambos destacados
em itálico. O primeiro são frases curtas, inseridas em momentos específicos,
que funcionam como lembretes da fatídica reunião corporativa em que ouvi a
expressão “Santarem, apesar da sua idade…”. Esses trechos não são meras
repetições: são pequenas fissuras narrativas que devolvem ao leitor a sensação
de impacto, desconforto e surpresa vivida naquele instante. São ecos que
atravessam o livro para mostrar como o preconceito, quando surge, raramente vem
sozinho — ele reverbera.
O
segundo recurso são pequenos contos, exemplos e cenas do cotidiano, também em
itálico, criados para provocar reflexão por meio de textos mais leves. Eles
funcionam como respiros filosóficos: histórias curtas que iluminam, com humor
ou delicadeza, situações que todos já testemunhamos, mas raramente analisamos
com profundidade.
Incorporei
ao livro algumas reflexões selecionadas do meu Blog +D60, criado em 2018. Entre
elas “Meu Jeito de Cuidar: da Casa, de Mim e um Dia de Cada Vez”, que ilustra
meu olhar sobre o cotidiano, o autocuidado e o envelhecimento ativo, procurando
conectar os leitores a experiências vividas, reais e inspiradoras.
“Apesar
da sua idade”, portanto, não compete com a literatura existente. Ele tem a
pretensão de a expandir. Introduz poesia onde antes havia técnica; metáfora
onde havia diagnóstico, filosofia onde havia estatística. E, ao fazê-lo,
oferece ao debate sobre idadismo algo raro: uma linguagem capaz de tocar não
apenas a mente, mas também a alma.
“Apesar da sua idade”
Baseado
em experiência vivida pelo autor
Estava
eu sentado na sala da presidência de uma multinacional farmacêutica, em frente
ao seu jovem e competente presidente, tendo, ao lado, uma profissional de uma
conceituada empresa de consultoria e seleção. Naquela época, eu ainda não havia
chegado aos 50 anos.
Estávamos
reunidos seguindo um ritual de avaliação de resultados do nível gerencial,
quando eu receberia o feedback do meu trabalho. Somente eu, o presidente e ela.
Foi
exatamente assim que ela iniciou: “Santarem, apesar da sua idade...”
Ao
ouvir tais palavras, a projeção de todos os eventos da minha vida profissional
começou a aparecer na minha frente. Via meus momentos de aprendizado, minhas
batalhas corporativas, minhas vitórias e as minhas derrotas também (não foram
poucas). A imagem de centenas de sorrisos de ex-alunos de pós-graduação, hoje
profissionais muito bem colocados no mercado de trabalho, derramavam-se na
minha frente, também em projeção.
“Santarem,
apesar da sua idade...”. A frase ainda reverberava por todo o meu corpo. As
ondas sonoras de cada palavra, emitida por aquela voz agradável, me corroíam
por dentro como um veneno.
Eu
não podia mais ouvir, depois daquelas palavras, muito do que era dito a meu
respeito e a respeito do meu trabalho, avaliado por aquela profissional. Não
podia. Eu me sentia em um túnel escuro, com a minha vida profissional passando
pela minha frente, enxergando uma luz branca e forte na minha frente.
“Pronto;
morri!...”
O
fato é que, resistindo a falta de tato e de profissionalismo daquela pessoa,
usei de todas as minhas forças para voltar, de fato àquela reunião. De fato,
porque, apesar de estar sentado junto com eles, meu espírito tinha mergulhado e
navegado por caminhos distantes, virtualmente. Voltei.
Voltei
daquele transe, certo de que o “apesar da sua idade” tinha uma conotação
preconceituosa; o preconceito do “Velho”. Voltei certo de que a educação
familiar que tive, não me permitiria ser grosseiro. Voltei certo de que
atitudes corporativas tem de ser seguidas à luz de códigos de conduta que eu
sempre respeitei.
Voltei
e, o mais importante era que eu estava lá de novo e poderia ouvir o restante da
avaliação.
Resumo
da história? “Apesar da minha idade”, eu estava entre os gerentes que obtiveram
o “mais alto grau de avaliação”.
Nada
tenho a discordar do termo “Velho”. O velho aqui (eu) está extremamente ativo
(até mesmo por necessidade); minha filha do meio me colocou o apelido de velho
e, quando ela me chama, a carga desse apelido vem impregnada de um amor e um
carinho maravilhoso! O ser velho, me permitiu curtir uma neta linda e
maravilhosa que me ensinou outro termo gostoso de se ouvir para muitos velhos:
“Vovô”.
Ficar
velhos, ficaremos todos. Não podemos ser, no entanto, como sabiamente fala um
dos meus filhos, “Dinossauros corporativos”. Não podemos ficar desatualizados.
Ao escrever este texto, após digitar o termo “curtir”, o corretor do Word
recomendou-me substituir por “apreciar” (!!). Não! Não vou substituir! (Caro
Word, você está desatualizado!). Trabalhos existem sobre tais “dinossauros
corporativos” mostrando que suas atitudes não têm, necessariamente, a ver com a
idade.
Por
outro lado, não podemos ser preconceituosos. Conviver felizes com o
inconformismo e com a sabedoria daqueles com menos idade, é como beber da fonte
da eterna juventude. Daí, eu gostar tanto de dar aulas (a maioria dos meus
alunos nem imagina que eu aprendo, em classe, tanto quanto eles!).
“Santarem,
apesar da sua idade...”, naquela época me deixou atordoado...
Faço
programas de treinamento corporativo em grandes empresas, com eventos e turmas
que ora se iniciam às 4:00 da manhã, com turmas que seguem no mesmo dia. Em
alguns dias outras se iniciam por volta de 1:00 da manhã!
Recentemente,
ao realizar um exame intensivo de capacidade pulmonar, a médica me disse,
“Olha, quando chegar na sua idade, eu quero ter a mesma força...”
Repararam?
“Quando chegar na minha idade” ...
A
experiência dos anos, nos ensina que, na verdade, não existe nenhuma dose de
ofensa em tais palavras, muito pelo contrário.
Quando
estava com cerca de 40 anos, a minha filha caçula me disse que eu era velho.
Estava correto. Eu estava envelhecendo. Mas quando um deles me perguntou:
“Papai como era no seu tempo?” Eu respondi, como era no passado, porque o meu
tempo é agora...
...E
pretendo ouvir, muitas e muitas vezes, “Santarem, apesar da sua idade...”
Carlos
Santarem

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